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domingo, 4 de dezembro de 2016

O SOL NASCEU DENTRO DE MIM, DEPOIS QUE A NOITE DISSE SIM

O novo álbum do cantor Gustavo Galo tem rock, baladas e muito desbunde em composições inspiradas.


Gustavo Galo faz parte da banda 'Trupe Chá de Boldo', mas também segue em carreira solo e acaba de lançar o segundo disco.

Considerando o percurso da carreira solo – Galo lançou o álbum 'Asa' em 2014 e segue agora em direção ao segundo disco com 'Sol'. Mas sua trajetória não representa o voo de Ícaro, pois buscou a inspiração na poesia 'A Extraordinária Aventura de Vladmir Maiakóvsky no Verão na Datcha”, onde o poeta conversa com o Astro-Rei.

'Até de manhã' abre o disco na forma de um rock sujo e repentino. Outro súbito rock ocorre já quase no final do petardo com 'Pra pegar', que trás a bateria precisa de Pedro Gongon e ainda a guitarra de Luiz Chagas e os synths de Quincas Moreira e vocais de Júlia Rocha – canção composta por Luís Capucho.

Galo brinca com a delicadeza das palavras em 'Tenra terra' e cria um clima suave para esta canção escrita em parceria com a cantora Iara Rennó e o guitarrista Gustavo Cabelo. Uma canção com o baixo aveludado de Gustavo Ruiz e piano rhodes de Tomás Oliveira, que também tocam em 'Pra te tocar', ainda com Sergio Sayeg nas guitarras e vocais de Juliana Perdigão e Pedro Morais – composta em parceria com Marcelo Segretto, da 'Filarmônica de Pasárgada'.

'Um barato' foi composta em parceria com a poetisa Júlia Rocha – utilizando livremente o poema dela, 'Carinho é barato', como ponto de partida. A canção tem arranjos vocais de Lucinha Turnbull – que para quem não sabe foi parceira da Rita Lee nas 'Cilibrinas do Éden'. 'Que mal tem?' também tem os vocais de Lucinha e foi composta a partir da afirmação do artista plástico Julio Plaza, “a arte é um mal que faz bem”.

Em 'Ah, se não fosse o amor', Galo assume a influência do ethio-jazz de Mulatu Astatke e entrega uma pérola composta por Lira e Dan Maia, também com Luiz Chagas nas guitarras. Em 'Grafitesão', Galo solta a libido e assume o fetiche da pixação de amor pelos muros da cidade – de preferência em frente da vista do próprio afeto.

As duas últimas canções do álbum são singelamente acústicas; 'Salto no escuro' de Jorge Mautner e Nelson Jacobina; e 'Um Sol' do próprio Galo, que revela que “assim que a noite disse sim, o sol nasceu dentro de mim”.

2016 Sol

1. Até de manhã
2. Tenra terra
3. Um barato
4. Pra te tocar
5. Que mal tem?
6. Grafitesão
7. Ah, se não fosse o amor
8. Pra pegar
9. Salto no escuro
10. Sol

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O MACACO BONG ESTÁ DE VOLTA COM A PEDRADA DA VEZ

A banda cuiabana 'Macaco Bong' volta com novo álbum inspirado e recheado de riffs potentes e poderosos.  

A banda 'Macaco Bong' era formada por Bruno Kayapy na guitarra, Ynaiã Benthroldo na bateria e Ney Hugo no baixo lançou o disco de estréia em 2008, o seminal 'Artista é Igual Pedreiro', que foi o primeiro álbum virtual da Trama Musical – mais ou menos a Natura hoje em dia...

Depois de dois anos de muito incenso pela espetacular estréia, a banda lançou novo material com o EP 'Verdão e Verdinho, que prometia muito mas deixava um anseio por mais peso pois a banda flertava mais com o jazz e criava climas e paisagens melancólicas que não seguiam o som do álbum anterior.

Então veio o 'This is Rolê' onde o power trio trazia a participação de Tulio Mourão, com Gabriel Murilo no baixo. Parecia, na época, um bom sucessor para o álbum de estréia – já que em 2012, ninguém aguentava mais esperar pelo segundo disco da banda.

Nisso a banda acabou... E ficou o Kayapy na sua guitarra como um guerreiro solitário em uma banda de um homem só.

Pois em 2015 o 'Macaco Bong' ressurgiu com um disco urgente, sujo e experimental, que trazia em sua essência a poderosa máquina de riffs certeiros de Kayapy. Nessa época eram seus parceiros Daniel Fumega na bateria e Julio Cavalcante no baixo.

Hoje, já com outro integrante no baixo, o Daniel Hortides, a banda apresenta seu mais novo trabalho, o auto-intitulado 'Macaco Bong'. Neste novo álbum, o 'Macaco Bong' apresenta um disco de clássicos pós-modernos.

O disco abre com hipnotizante 'Lurdz' e depois segue com a balada 'Bejim da Nega Flor' para culminar com a épica 'Chocobong'. 'Baião de Stoner' faz o que se propõe ao colocar o baião no rock ou vice e versa e logo na sequência 'Saci Craquente', que faz menção ao maracatu e ao frevo. O disco encerra com a máquina de riffs acelerada de 'Carne Loca', 'Distraídos venceremos' e 'Macaco'.

O que na época era uma afirmação no título do álbum de estréia, com 'Artista é Igual Pedreiro', virou uma premonição de que “artista precisa ser igual pedreiro”. Então o 'Macaco Bong' segue com a pedrada certeira de sempre.

2016 Macaco Bong

1. Lurdz
2. Bejim da Nega Flor
3. Chocobong
4. Baião de Stoner
5. Saci Craquente
6. Carne Loca
7. Distraídos Venceremos
8. Macaco

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

PROCURO UMA RIMA DE ASPIRINAS PARA O REFRÃO

O cantor, compositor e guitarrista Dillo Daraújo apresenta seu disco mais pop, recheado de diversas referências culturais.


Dillo Daraújo fez um álbum rico e singelo que fala de novelas mas também faz uma crítica voraz às redes sociais. Pra quem não tinha perfil no twitter, Dillo mostra-se ainda mais mordaz que no disco anterior. Mas também sobraram crônicas sobre a vida a dois, sobre estilos musicais e até relações profissionais.

Nesse disco, Dillo vira o personagem que intitula o álbum, mas que surgiu antes lá no 'Jacaretaguá' de 2012. Onde esse mesmo personagem mergulhou nos temas propostos lá naquele período e que se repetem evoluídos neste novo petardo.

Se em 2012 você ouvia 'Plano marmita', agora em 2016 temos 'Home sweet rua', que evolui nas rimas ferozes de um robô efêmero lá da Guariroba. 'Sessão do descarrego' continua em 'Jesus Krishna' com a pegada de hit garagem com a “calça arrochadinha” e “topete de galinha” etc e tal.

Agora em 2016, Dillo chega maduro e experiente e já com filha adolescente, pra quem ele dedicou o sucesso de novela 'Mamãe mamãe', baseada em uma discussão escolar sobre o futuro que é projetado a todas meninas de 13 anos em diante. Com letra feminista Dillo abre o microfone para o próprio feminismo interior.

O tempero latino sensual sempre esteve presente na obra de Dillo e neste disco não poderia ser diferente como a suave 'Dois a dois', a acelerada 'O som do sal' e a poética 'Amor de ficar' onde o cantor cunha a expressão de “rima de aspirina pro refrão” com sua verve poética cada vez mais em evidência.

'Pena que se acaba' trouxe a concretização de uma parceria bem sucedida com o Roberto Frejat na guitarra, que até foi relatada em tom profético na canção 'Fica para o próximo disco', onde Dillo e o o guitarrista angolano Nuno Mindelis apresentam diversas desilusões e desencontros profissionais.

Em 'Só que não', Dillo apresenta uma crítica social poderosa em duplo-sentido. Ao usar a sigla SQN do mêmê 'Só que não' nas redes sociais e intitular a canção que critica as redes sociais de 'Só que não'; ele cria um paradoxo interessante. Uma curiosidade, SQN também é um endereço em Brasília... [os comentários estão abertos para outras teorias interessantes].

'Tempo tido' abre o disco com uma delicadeza que não tem precedente em qualquer outra parte do álbum. Uma obra que reserva ao ouvinte o prazer de conhecer diversas facetas do personagem Dillo, que vai desde o rock ao bolero em questão de minutos... Vai lá então!

2016 Dillo

1. Tempo tido
2. Jesus Krishna
3. Mamãe mamãe
4. Amor de ficar
5. Só que não
6. Dor a dois
7. O som do sal
8. Fica para o próximo disco
9. Home sweet rua
10. Pena que se acaba

quinta-feira, 14 de julho de 2016

segunda-feira, 30 de maio de 2016

A CANTORA, O GUITARRISTA E O SAXOFONISTA

Banda com Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França lança terceiro álbum e desponta no cenário internacional.


O 'Metá Metá' é pura força do candomblé! Uma noite no terreiro! As performances ao vivo são de força e energia. Neste terceiro álbum a banda captura em estúdio a potência sonora das apoteóticas apresentações.

Dessa vez o 'Metá Metá' brinca com a escala da música árabe, influência da turnê marroquinha, que levou a banda a tocar na capital Rabat. Intitulado 'MM3', o novo disco potencializa a agressividade alcançada pela banda nas performances e canaliza tudo nas nove faixas.

'Três amigos' abre o álbum preconizando as três partes da 'Metá Metá' – Juçara Marçal no vocal, Kiko Dinucci na guitarra e Thiago França no saxofone – hoje os três recebem auxílio de Sergio Machado na bateria e Marcelo Cabral no baixo. Todos juntos fizeram os arranjos do novo álbum.

'Angoulême' trás a primeira parceria do trio, composta especialmente para este disco. Com forte pegada punk-rock a canção ainda trás experimentação sonora e vocal de Juçara Marçal – que iniciou a carreira no grupo vocal e agora pode ser considerada uma das maiores cantoras brasileiras da atualidade. 

'Imagem e amor' é mais uma parceria de Kiko com Rodrigo Campos, que inicia delicadamente e logo se transforma em uma tensa experiência. “A imagem do amor não é pra qualquer um. Fere os olhos desleais, impele os imortais”, revela a letra. Onde a voz de Juçara ecoa através dos cânticos comuns na cultura popular árabe.

'Mano légua' é uma das mais lindas e brutas canções de todos os tempos – com o saxofone complementando o riff da guitarra enquanto contrapõe os vocais. Parceria de Juçara com Dinucci. 'Angolana' é mais uma parceria do trio e representa a canção mais popular do disco. A melodia dobrada pelo sax e vocal deixa à guitarra a função de criar uma linha narrativa e ao baixo a criação do clima de faroeste. Bonito solo apoteótico do França.

'Corpo vão' é mais uma parceria da cantora, do guitarrista e saxofonista. Como sempre, os vocais cumprem a função instrumental como um dos pontos de um triângulo equilátero, que se reforça na participação das cordas e sopros. 'Osanyin' evoca o senhor das folhas, que no candomblé é Ossain – o que era pra ser uma canção delicada vai se tornando pesada e criando clima até se encerrar suavemente.

'Toque certeiro' é uma parceria entre Siba e Kiko Dinucci e mostra nitidamente as influências africanas do cantor pernambucano e a veia sambista do compositor paulistano. Toda essa mistura para criar uma mistura entre o ritmo tradicional de Mali, o afrobeat da Nigéria com o samba brasileiro. A perfeita sincronia entre os vértices deste triângulo impressionam e impregnam os sentidos de quem percebe além do hermetismo.

'Obá Koso' quer dizer “Rei Koso” em iorubá e representa a lenda do menino rei. Uma bela canção representante do Candomblé Ketu. Com esse sentimento o 'Metá Metá' encerra o álbum mais pesado de sua carreira. Oxalá venham muitos outros pesados, leves, tortos ou mais tortos... Axé!

2016 MM3

1. Três amigos
2. Angoulême
3. Imagem e amor
4. Mano Légua
5. Angolana
6. Corpo vão
7. Osanyin
8. Toque certeiro
9. Obá Koso

quarta-feira, 20 de abril de 2016

QUE NÃO SEJA MEU O MUNDO EM QUE O AMOR MORREU

Repleto de mudanças e novas misturas, a banda 'Judas' lança EP onde mostra amadurecimento em três distintas canções.  


Depois de uma poderosa estréia, a banda 'Judas' apresenta um EP com canções que desvelam novos caminhos e novas misturas. Sempre mesclando o rock folk daquele velho estilo Bob Dylan recém-eletrificado com a viola caipira tão presente neste cenário atual.

Neste sentido, Adalberto Rabelo Filho acertou ao escolher morar em Brasília. Porque isso possibilitou sua participação na nova cena musical da capital brasileira. Após ter vindo do 'Numismata' e de ter composto diversas canções entoadas por gente como Luiz Melodia, Maria Alcina e até bandas como 'Vespas Mandarinas'.

Se no primeiro álbum os arranjos das canções de Adalberto primavam pela mescla do regional caipira com o roquenrou, agora neste EP o 'Judas' vai além. Criando atmosfera espacial psicodélica, sem deixar de lado o sertanejo e o roqueiro. Com um EP conceitual, a banda se permite a recriação do bordel parisiense de conhecido como casa de tolerância – estabelecimentos onde moças se oferecem e se entregam à luxúria total.

Mas nem só de libidinagem vive o EP 'Casa de Tolerância nº 1', que já chega deixando um gosto de quero mais e antecipando a espera pelo segundo volume. Adalberto revela que este EP será o primeiro de uma série que vai relatar a história da orelha cortada de Van Gogh, passando por temas como “amor e ódio”, “vida e morte” e “doença e cura”.

O 'Judas' trás Adalberto nos vocais e composições, Pedro Vaz na viola caipira e percussões, Bruno César Araújo na guitarra, bandolim e vocais, Carlos Beleza nas guitarras, Pedro Souto no baixo, Hélio Miranda na bateria e teclados e Fabio Miranda nos vocais – com participação de Guilherme Cobelo (o Joe Silhueta) nos vocais de todas as três faixas.

'Cada cidade, um porto' é um roquenrou cheio de energia ijexá e com poesia plena definidora e ilimitada – com as participações da voz de Maria Sabina e vocais de Cristina Fleury. 'Oroboro' é uma balada misteriosa que denota rara beleza e pura poesia – mostra toda a delicadeza de compositor que Adalberto carrega em suas canções. 'Casa de Tolerância nº 1' foi composta por Adalberto em parceria com Pedro Vaz, trazendo a participação de Rosa Barros no clarinete – numa viagem psicodélica e progressiva.

A banda 'Judas' vem se firmando como uma opção de música de qualidade num cenário de inúmeras possibilidades e Adalberto como um grande compositor de sua geração – como se ouve nos versos de 'Oroboro', “Ah, que não seja meu o mundo em que o amor morreu”. A verdade é que o nome deste EP revela o sentido de que há de se ter mais tolerância entre os homens. Mais amor! Por 'Judas'!

2016 Casa de Tolerância nº 1 EP

1. Cada cidade um porto
2. Oroboro
3. Casa de tolerância Nº 1

terça-feira, 29 de março de 2016

JOE SILHUETA E AS CANÇÕES QUE O DYLAN FEZ PARA SI ou AS ANTAS AINDA SE ALIMENTAM DE AIPIM

Cantor, compositor, poeta, livreiro, violeiro e trovador são as diversas faces de um dos novos artistas da cena musical do cerrado.


Joe Silhueta é Guilherme Cobelo ou o vice-versa também seria muito correto. Um personagem criado para vislumbrar de relance o instante da dúvida. Este é o Joe Silhueta. Que nas palavras do criador, Cobelo, “Eu sou o Joe Silhueta né? Eu roubei a voz dele para cantar as músicas que eu fiz, roubei a figura dele, a sombra, me visto de Silhueta pra não ficar tão dentro de mim”, revela.

Quando Guilherme Cobelo deu vida ao personagem interior, o Joe Silhueta, percebeu que estava de frente com uma força natural. Persona que na pior das hipóteses pode servir de válvula de escape para o artista. “Já tenho para quem recorrer quando ficar louco”, confessa Cobelo.

Joe Silhueta é um bardo grogue que canta os poemas colhidos na noite torta. É um trovador no sentido de que a letra conduz a canção. Eu gosto muito e escuto sempre Elomar, que pra mim é o grande rapsodo brasileiro. Admiro muito o jeito dele tocar violão e cantar as histórias, toda a mítica sertânica que o envolve”, define Guilherme.

O fato é que ao criar um heterônimo, Cobelo, se equalizou com diversos artistas transgressores, como poetas, cantores e cantoras – se transformando na sua alternativa pessoal aos funcionários públicos, extra-terrestres ou rainhas monstros – rementendo-nos a Fernando Pessoa e suas outras facetas de Ricardo Reis a Álvaro de Campos; David Bowie em Ziggy Stardust; e Lady Gaga com sua Monster Queen, respectivamente.

Ao criar toda uma mitologia de sertanias, que envolve sua personagem, Cobelo se tornou parte da própria criação e impossível de dissociar da silhueta de seu alter ego. “O bom do Silhueta é que, sendo máscara, posso mudar de rosto quantas vezes quiser, fazer quantas expressões forem necessárias”, enfatiza Guilherme.

Cobelo também já lançou o EP 'O Salto do Cenoura', com o 'Tritongo', um trio instrumental formado por ele, Victor Valentim e Alexandre Lima. O EP foi gravado como trilha sonora para o curta-metragem de Tiago Rocha sobre a Cidade Estrutural. Neste EP há um início do sentimento do Joe Silhueta como personagem...

Mas Cobelo segue transgredindo com boas e atuais composições que versam sobre o cotidiano do cerrado de Brasilia – desde a lei seca a orgasmos múltiplos em horas impróprias...



Como surgiu o Joe Silhueta?

O nome Joe Silhueta me veio em 2008. Surgiu do centro de um redemoinho vertiginoso, coagulou-se em meio ao caos que era a minha vida nessa época. Veio também feito máscara – plá! – e de repente tava ali diante de mim, um rosto se oferecendo ao rosto, ou à falta dele. Mas a figura do Joe como um todo eu ainda não sei quem é. Talvez no começo tenho sido o estranhamento que eu sentia em relação a mim mesmo que gerou esse duplo, não estava acostumado com a minha voz, então acabei inventando uma, várias, para expressar tudo aquilo que estava borbulhando dentro de mim. Depois veio o personagem, ou pelo menos a ideia dele, um menestrel errante, um bardo louco, um trovador grogue vagando por um mundo alucinado, errando pelos abismos de cá e de lá, cruzando com sereias e quimeras, muito mais sonhando que acordado. Sombrio. Mítico, sondando raízes profundas e passados fantásticos. Hoje em dia a Silhueta não é mais tão abissal e já consigo ver ela boiando em outras águas, feito um peixe sedento de luz solar.

Qual Dylan mais influenciou o 'Dylanescas'? O poeta ou o cantor?

Quando eu comecei a compor mesmo, por volta dos 16-17 anos, os discos que mais ouvia eram do Bob Dylan, minha mãe tinha vários dele e rolava de baixar tudo quanto é bootleg e outtake na internet. Passava horas tirando as músicas, traduzindo as letras, aprendendo as afinações que ele usava nas primeiras gravações, vendo os vídeos, lendo as crônicas, os poemas. Naturalmente fui assimilando as estruturas dylanescas, por gosto e por osmose. Quando as canções começaram a sair vieram com essa cara, por isso o nome do EP. É um tributo a essa influência que o Dylan exerceu sobre mim. Do Dylan Thomas mesmo não houve muita influência a não ser através do próprio Bob. 'Fantasmaria' foi feita em cima do campo harmônico de 'Simple twist of fate'; 'Dylanesca' usando o dedilhado de 'Boots of spanish leather'; 'Sapos e absurdos' no espírito de 'Positively 4th street'. São músicas velhas, dessa primeira leva de composições para voz e violão, a mais recente é 'Não ligue o rádio', que deve ser de 2010-11.

Você acha que o Joe Silhueta se encaixa no cenário do rock-rural?

Faz sentido. Até por vivermos no sertão do cerrado, no velho centro-oeste, tão próximos do pasto e das cachoeiras quanto da piração urbana. Muitas vezes o nosso rock é dançar catira. A tendência é sintética, aproximar as tradições sonoras. Mas ao mesmo tempo a “tag” rock-rural pode gerar uma expectativa frustrada, por exemplo, se você colocar lado a lado o 'Dylanescas' e o 'Quimérico', que estou gravando no momento e soa muito mais como forró maldito ou um som pantaneiro urbano, como já disseram uns chegados. É música grogue, tem disso e daquilo aos quilos, muito do espírito estradeiro de 'Sá, Rodrix e Guarabyra', dos delírios de Flaviola; e é rural na medida que Bonifrate e Diego de Moraes o são; sem grilos.

Como foram as gravações do EP?

Quando o EP começou a ser gestado a ideia era ser bem dylanesco mesmo, na linha do 'Freewheelin’, voz-violão-gaita, depois veio a ideia de criar mais arranjos para uma banda de bluegrass, que afinal acabou não saindo do papel. Além da bateria de 'Sapos e absurdos', todo o resto eu e o Kelton quem tocou. O disco precisava sair e foi a maneira mais prática que encontramos para solucionar isso. O Kelton é uma banda inteira. Já pro lançamento resolvi reunir a malungada e montei a 'Noite Torta' com elementos de várias bandas daqui, além do Kelton no baixo e voz, tem o Sombrio – aka Lucas Muniz – na sanfona e clarineta, emprestado do 'Satanique Samba Trio' e 'Cantigas Boleráveis', o Thiago de Lima Cruz do 'Bloco das Divinas Tetas' e 'Zabumbazul' na percussão, Márlon na bateria e Beleza, do Judas, na guitarra, membros do 'Almirante Shiva' que também tocam comigo na 'Korina', e Tarso Jones no teclado e Gaivota Naves na voz, diretamente dos 'Rios Voadores'. É uma loucura, um fuzuê mutante, amigos tocando junto, ora em octeto, quinteto, ora quarteto, ou solo, se for o caso, vai saber.

Já existem mais canções para um segundo EP?

Sim, alguns discos, as músicas já estão prontas. Tem o 'Sem ponteiros', o 'Lunário', que são a sequência do 'Dylanescas'. Uma trilogia. Como início de novo ciclo, pós-'Noite Torta', viria o 'Quimérico', com o 'Bando de Imburana' com o Munha do 'Satanique Samba Trio', Sombrio e Hélio Miranda, bateirista dos Rios Voadores – que vai acabar saindo antes dos outros dois por circunstâncias mágicas. No show de lançamento a gente misturou um pouco do repertório do 'Bando', que tem um som muito mais a ver com Alceu Valença no começo de carreira do que com o Bob Dylan. Então assim, na sequencia do 'Dylanescas' vem esse outro disco com as sertânicas, um álbum. Embora eu esteja usando o nome Joe Silhueta para os dois projetos – já que o movimento é para unifica-los –, o personagem Imburana tem uma mitologia própria. É o aspecto solar do Silhueta, é ele emergindo dos abismos galopando uma quimera e se realizando na superfície mundana, meio lunático ainda, é verdade, mas um pouco mais eufórico que o duplo anterior. O 'Quimérico' tá sendo produzido pelos 'Tenebrothers' (Jota Dale e Munha da 7), que também são do 'Satanique Samba Trio' e deve sair no segundo semestre de 2016.

Me fala do 'Dom Caixote'?

O 'Dom Caixote' é um sebo andarilho que ganhou forma e nome em 2014. Mas vender livro na rua eu vendo há muito tempo, desde 2004. De bar em bar, de mesa em mesa. Hoje em dia o Caixote vai até às feiras, ocupa outros espaços, vende pela internet, tem estante no 'Llolla Lab' e aos poucos vem se tornando também uma editora e publicadora, tem o selo 'Grogue' que já lançou um texto meu ('Ela me entregou o cavalo naquele ermo e desapareceu') e uma coletânea minha e da Gaivota Naves, as 'Kartas do Abismo', que é um dos cadernos da 'Mitologia Grogue'.

Qual sua opinião com toda essa questão de free-downloads?

A minha opção com esse ep foi disponibilizar gratuitamente na internet para conseguir um alcance maior. Com os próximos lançamentos vou fazer o mesmo, mas também vou colocar à venda, se alguém quiser pagar, que pague. Mas espero mesmo vender os discos em shows, por encomenda e no 'Dom Caixote'. Eu me criei baixando músicas de graça no mirc, no Napster, em blogs, e acredito que foi graças a toda essa profusão de informações que cheguei às pérolas. E nunca deixei de comprar um disco que eu quisesse muito porque já tinha em casa em mp3. É assim: freetura.

2016 Dylanescas (408 Melancolia)

1. Dylanesca
2. Não ligue o rádio
3. Canto de Orfeu
4. Fantasmaria
5. Sapos e absurdos

segunda-feira, 21 de março de 2016

UM CARNAVAL DE ALITERAÇÕES NA VOZ DE MATHEUS BRANT

Cantor e compositor mineiro lança obra que homenageia o carnaval pela alegria contida nos ritmos tradicionais que são estimulados nesta festa de rua.   


Matheus Brant 'Assume Que Gosta' do carnaval ao lançar o álbum com canções que usam de ritmos muitos usados nesta festa popular. Já tendo participado de alguns carnavais na frente do bloco de rua 'Me Beija Que Eu Sou Pagodeiro', Matheus sabe bem como levantar o público do chão e levar pro meio do salão.

Com um disco cheio de diversidade de ritmos, Matheus inicia o percurso com a faixa-título, 'Assume que gosta', que tem uma pegada oitentista nos sitentizadores de Dustan Gallas numa composição popular extremamente pegajosa de Brant e Rodrigo Torino.

A dançante 'A levada do arrocha' vem na sequência trazendo a lambada na guitarrada de João Ebertta de autoria de Brant com Renato Rosa. Seguida pelo afoxé '#magrela', que tem a levada na percussão de Lenis Rino. Bela canção de Brant recheada de aliterações e letra de pura poesia. Ambas com Tibless, Marina PittierTsezanas e Julia Pittier no coral, que ainda cantam em 'Me namorar'.

A regravação de 'Abandonado' do 'Exalta Samba' leva ao limite da tênue linha entra o brega e o chique. Essa canção do Thiaguinho e do Pézinho, na voz de Brant ganha sutileza e delicadeza e vira um soul classudo. De carnaval só o pagode da banda original mesmo.... Com participação de Fábio Pinczowski e Mauro Motoki dobrando a voz no final da canção e gravando e produzindo todo o resto do álbum.

'Do prazer' tem a participação de Luê em mais uma bela composição de Brant em parceria com Renato Rosa. Uma lambada épica! 'Hoje o dia é seu' pode ser uma nota fora do tom no meio do álbum. Um rock poderoso de guitarras épicas, baixo preciso e bateria pesada com João Ebertta, Dustan Gallas e Lenis Rino, respectivamente em todo restante do disco também.

'A balada' segue com forró, sertanejo universitário ou que-porra-de-diabéisso que o Matheus decidiu gravar.... Com essa canção, ele vem provar que o sertanejo universitário (que na verdade é forró não é?) é ruim apenas porque não é tem boas letras, métricas ou rimas – ou seja, uma canção com um conteúdo mais amplo que carros, gatas e baladas soaria bem melhor – que é o caso desta canção...

Em 'Carnaval' e 'Marchinha francesa' Brant apresentada com o maior bom humor canções de letras leves e brincalhonas para serem cantadas em uníssono por toda gente... 'Carnaval' de autoria de Brant e do rapper Kdu dos Anjos. Coros e palmas por Renato Rosa, Joana Brant, Eduardo Faleiro, Felipe Barros, Natália Meirelles, Luiza Morais e Rafael Antunes, em ambas as faixas.

'Sereia' também é uma marchinha, mas ficou tão eletrificada que mais parece uma canção dos 'Novos Baianos'. Com participação de Juliana Perdigão, em composição de Brant e Ana Martins Marques. 'Pagode' trás o melhor do axé, onde Brant assume que a própria profissão, de advogado, são de "gostar de falar".

O disco encerra com três versões dub de canções do mesmo álbum, como 'Assume que gosta', 'A levada do arrocha' e 'Do prazer'.

2016 Assume Que Gosta

1. Assume que gosta
2. A levada do arrocha
3. #magrela
4. Abandonado
5. Do prazer
6. Hoje o dia é seu
7. A balada
8. Carnaval
9. Sereia
10. Me namorar
11. Pagode
12. Marchinha francesa
13. Assume que gosta (dub)
14. A levada do arrocha (dub)
15. Do prazer (dub)

segunda-feira, 14 de março de 2016

LUCAS VASCONCELLOS CANTA SILENCIOSAMENTE ou O AMOR É SÓ MAIS UMA DAS 1.000 COISAS QUE EU PROVEI E QUE DEU ONDA.... ou mais ainda PODE DEIXAR DE LADO A FACA-DA-MATEIGA E SUSPENDER O SUICÍDIO

Lucas Vasconcelos revisita a própria carreira e relembra canções que marcaram sua vida em distintos momentos da vida.  


O novo álbum de Lucas Vasconcellos mostra um artista preocupado com a forma de cada canção e que se mostra diferente do projeto que mantém com a ex-mulher ou da própria carreira solo. 'Silenciosamente' se desvela como uma obra singela e intimista.

Um disco terapêutico, como define o próprio cantor. Que para alguns pode até parecer por demais depressivo, com todos arranjos ralentando o tempo original das canções. Quase como uma trilha sonora de noites de sofrimento. Mas esta forma única de reapresentar as melodias valoriza as letras e poesias, dando mais ênfase na palavra.

Quando Lucas lançou o primeiro disco solo 'Falo do Coração' , de 2013, nem imaginava que ali estariam três canções que serviriam para determinar a urgência definitiva deste álbum nas faixas 'Meu seu', 'Flor de tudo' e 'Eu não vou chorar por fora'.

O segundo álbum veio em 2015 com o belo 'Adotar Cachorros' – que precedeu o registro 'Ao Vivo na Comuna' do ano anterior – de onde vieram as canções 'O amor tem que ser mais do que saber escrever uma carta', 'Adotar cachorros' e 'Silenciosamente'.

Quanto às releituras, Lucas revisita um sucesso de sua própria banda – o 'Letuce', em que divide o palco com a cantora Letícia Novaes – a canção 'Areia fina', que ganhou um versão suave e delicada – bem diferente da versão original que saiu no álbum 'Manja Perene', de 2012.

Interessante ouvir 'Lady grinning soul', original de David Bowie, delicadamente desconstruída por um Lucas ao piano. Para em seguida apresentar os clássicos da bossa-nova 'Você e eu' com a introdução de 'O amor em paz' , numa versão que transmite uma urgência sem precedentes demonstrada na repetição de parte da letra, bem como nas retomadas de fôlego e tensas respirações.

O eco nas canções surge logo no início, na faixa de abertura, com a versão para o clássico de Hyldon, 'Na rua, na chuva, na fazenda' – onde Lucas vai mais além ao acrescentar parte da letra de 'Balada do louco', de Arnaldo Baptista e Rita Lee, e também ao dialogar diretamente com o ouvinte.

Porém é na versão desconcertante de 'Teatro dos vampiros' – de Renato Russo e gravada originalmente pela 'Legião Urbana em 1985, no álbum 'V' – que Lucas se apodera da canção ao reapresentá-la de forma extremamente pessoal e com uma interpretação sublime.

Então... Depois que você ouve e entra em sintonia com a mensagem que o Lucas quer passar, você deixa de lado a impressão de um disco depressivo e percebe que você não é mais uma personagem de alguma ópera-rock-tragicômica... Este disco não é mais essa trilha sonora...

Você vê o poder curativo da interpretação pessoal com que Lucas impregnou cada canção. Quase que dá pra sentir a angústia permeando algumas canções, enquanto alívio em outras, a calma em mais umas... Uma bela obra singular.

2016 Silenciosamente

1. Na rua na chuva na fazenda
2. O amor tem que ser mais do que saber escrever uma carta
3. Silenciosamente
4. Meu seu
5. Flor de tudo
6. Eu não vou chorar por fora
7. Lady grinning soul
8. Amor em paz – Você e eu
9. Adotar cachorros
10. Teatro dos vampiros
11. Areia fina

domingo, 6 de março de 2016

LÂMINA ÁVIDA DAMA DÁDIVA ANIMAL

Cantor, compositor e multi-instrumentista Assis Medeiros volta a seara popular com novo álbum de pérolas pop.

Assis Medeiros é daqueles artistas especiais, que fazem grandes canções populares que quase ninguém conhece. Ele é daquela estirpe desconhecida de grandes compositores, que ainda precisam ser descobertos por um grande cantor que os interprete. Tarefa difícil essa de interpretar as canções deste cantor ímpar, que parece compor para si mesmo de tão pessoais que são.

Depois de criar dois álbuns de grandes canções populares – 'Pirata' e 'Burrodecarga' – Assis voltou as origens com o álbum 'Baiãozinho Nuar', onde focava no ritmo baião ao mesmo que apresentava canções populares com esse ritmo. Ele ainda flertou com trilha de cinema em 'Um Pouco de Dois' e agora voltou a empunhar guitarras com maestria em novas canções pops neste álbum – 'Lâmina'.

'Sempre será' abre o álbum com um solo gutural e urgente, com tom profético onde Assis previu que “esteve tudo como sempre será”. 'Fogo' trás de volta o ponto forte das composições de Assis, que são as rimas fortes e arranjos primorosos, neste bolero roqueiro com tempero “caliente”.

Com destreza, Assis domina as linguagens das guitarras, violões, teclados e ukeleles, mas também se cerca de competentes atuações musicais como Fernando Rodrigues no baixo e Marco Guedes na bateria – sem falar nas diversas participações especiais.

A cantora Flora Lago, dá voz a canções de climas sensoriais e extraordinários como em 'Agora' e 'Sombra seca', mas brilha mesmo na balada romântica 'Um pouco de sol'. 'Se você' é intensa e se completa com 'Animal', com metais frenéticos e frequentes com os majestosos Westonny Rodrigues (trompete e flughel) e Mesaque Balbino (saxes alto, baritono e tenor) e Marcos Wander (trombone).

'Eu vou dizer' faz uma crítica contundente à política do país e soma-se a 'A pluma e você', que transforma o cenário de São Paulo em crônica urbana. 'Largo' é dedicada à fase psicodélica de Alceu Valença e tem participação de Leonardo Batista no baixo, enquanto 'Fugir por aí' evoca a fase áurea dos 'Titãs'. Esse disco é um festival de guitarras.

'Tudo é pop' é um reggae popular que trás belos sons de metais e 'Aviso' é um longo blues de execução singela e sutil. Assis é mestre em criar climas que surgem através de palhetadas certeiras de solos simples e precisos, mas ele permite que outros guitarristas também brilhem no álbum, como Zé Flores e Marcelo Macedo.

Este com certeza é um álbum de guitarrista e pode-se notar diversas influências que permearam o universo musical de Assis Medeiros

2016 Lâmina

1. Sempre será
2. Fogo
3. Agora
4. Se você
5. Eu vou dizer
6. Sombra seca
7. A pluma e você
8. Um pouco de sol
9. Animal
10. Largo
11. Tudo é pop
12. Fugir por aí
13. Aviso
14. Lâmina

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O CARNAVAL UNIVERSAL DA ESPETACULAR CHARANGA DO FRANÇA

Thiago França quer regatar as charangas de rua que seguirem pelo asfalto de Belo Horizonte em épocas distantes.


Thiago França é um dos mais requisitados músicos da nova geração de grandes instrumentistas brasileiros. Toca saxofone em bandas como 'Metá Metá' – onde divide os palcos com Kiko Dinucci e Juçara Marçal – e em projetos pessoais como 'Sambanzo' e 'MarginalS', mas também toca com gente como Criolo, Rodrigo Campos, Elza Soares, Rodrigo Ogi e muitos outros.

França já em seu primeiro disco mostrou uma gafieira linda de se ouvir. Depois ele produziu e se apresentou com Dona Ináh e foi se envolver com a galera da nova vanguarda paulistana ou com o pessoal do samba sujo de São Paulo ou da forma como chamam ou são chamados essa nova turma musical de sampa. Dai para tocar em parceria com gente como Tony Allen e Mulatu Astatke foi apenas um passo.

Dito isso, ele lançou um disco de marchinhas de carnaval no primeiro dia deste 2016 – um álbum que veio dar sequência ao projeto pessoal da 'Espetacular Charanga'. No primeiro momento, França levantou temas que remetiam a cumbia e boleros quando lançou o EP 'A Espetacular Charanga do França Ataca Novamente' em 2013. Mas logo veio com a versão espacial jazzística do projeto em 'Space Charanga' de 2015. Agora ele assume de vez o carnaval e apresenta uma nova safra de marchinhas inéditas.

O novo disco trás diversas parcerias como a faixa de abertura, 'O capitão do sax', composta por França e Alice Coutinho, cantada pela maravilhosa e inconfundível Juçara Marçal. Douglas Germano dá voz a letra de 'Marchinha do pitbull (homo pitbullicus)' e também toca cavaquinho nesta composição em parceria com França.

'Adeus saudade' nos remete aos bons cortejos, composta por França e Rômulo Fróes, que canta a letra inspiradíssima. 'Gourmetizada' faz uma crítica ácida a vida social moderna, composta em parceria com Clima e cantada pelo próprio. Tulipa Ruiz canta 'Cara do apetite', canção que ela mesmo compôs com França e ainda tem a participação de Luiz Chagas na guitarra.

França também compôs sozinho algumas marchas como 'O trombonista' com a guitarra especial de Rafa Barreto, 'Ferro na boneca' com Kiko Dinucci na guitarra e 'Santa Cecília de Itabirito'. A banda da charanga é França no sax-alto e tenor, Anderson Quevedo no sax-barítono e flautas, Amilcar Rodrigues no trompete e flughel, Allan Abbadia no trombone, Filipe Nader na tuba, Wellington 'Pimpa' Moreira na bateria e agogô e Samba Sam no surdo. Com participações no flautin e flauta de Cuca Ferreira, no trombone de Victor Fão e no clarinete de Juliana Perdigão e Maria Beraldo Bastos.

'O bom marido' trás Rodrigo Campos na voz, guitarra e composição em parceria com França – numa típica canção de Campos, onde ele evoca diversos nomes de personagens naquela característica crônica cotidiana particular. 'Eu vou pra fornalha' é composição de França e Clima, mas com vocais de Juçara Marçal – a canção evoca os blocos de carnaval de rua. O coral carnavalesco especialíssimo com gente como Juçara Marçal, Tika, Victória, Maria Beraldo Bastos, Samba Sam, Caê Rolfsen, Rafa Barreto e o próprio Thiago França.


Como toda boa folia carnavalesca, o França também criou o próprio movimento popular com o 'Espetacular Bloco da Charanga do França', que levou oito mil pessoas para as ruas de Santa Cecília em São Paulo.

O disco termina com 'Brasirodim' composta por Pimpa, onde ele colocou voz e violão com o próprio França na flauta – a canção difere do resto do álbum mas a intenção é essa mesma. “Achei que ia ser massa terminar o disco com algo apontando pra outra direção. Alguma coisa que não conversa diretamente com o resto.”, encerra França.

2016 O Último Carnaval de Nossas Vidas

1. O capitão do sax
2. Marchinha do pitbull (homo pitbullicus)
3. O trombonista
4. Adeus saudade
5. Gourmetizada
6. Cara do apetite
7. Santa Cecília do Itabirito
8. O bom marido
9. Ferro na boneca
10. Eu vou pra fornalha
11. Brasirodim

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

SEJA MARGINAL, SEJA HERÓI E ABRA SUA MENTE

A maior orquestra brasileira de afrobeat é a 'Abayomy', que com 13 integrantes apresenta um som pesado e suingado com inúmeras influências.  


'Abra Sua Cabeça', o segundo álbum da 'Abayomy Afrobeat Orquestra' é um disco poderoso que fala da ancestralidade com delicadeza de quem percebe o mundo de possibilidades e combinações. Nele, a banda impõe uma pegada suingada bem característica, que é ressaltada pela produção certeira de Pupillo.

Logo no início a canção 'Abra sua cabeça' institui um perfil místico e xamânico do álbum ao evocar os orixás de cabeça de cada um e nos presentear com um solo venenoso do sax barítono de Thiago Queiroz – a canção tem introdução de uma fala do próprio Tony Allen – falando exatamente sobre o outro criador do afrobeat, Fela Kuti.

'Mundo sem memória' trás o Otto cantando e tendo composto essa pérola em parceria com o cantor, compositor e guitarrista Zé Vito. A canção enaltece a beleza da enorme diversidade de raças presentes no Brasil com um baixo envolvente de Pedro Dantas.

“Atotô” evocam os que saudam 'Omolu', cantada em yorubá por Alexandre Garnizé, que também é um dos percussionistas da banda junto com Claudio Fantinato e Rodrigo Larosa – com solo de guitarra de Gottardi e destaque para a ambientação do teclado de Maurício Calmon. O aveludado e melodioso solo do trombone é de Marco Serragrande. “Atotô”!

'Oya! Oya!' foi composta por Gustavo Benjão e pelo bateirista Thomas Harres – com solo da guitarra do próprio Benjão, que divide o posto com Gottardi. 'Com quem', composta pelo saxofonista Fabio Lima, estabelece o tema do karma ou da reciprocidade como moeda moral dos dias de hoje na canção, mas direciona a crítica ao viés político dos que comandam o país através de alianças e concessões. Com uma levada quase de funk-carioca a canção cativa com o lindo solo do trompete de Leandro Joaquim.

'Sensitiva' trás a participação da Céu num reggae transcendental com guitarra slide de Zé Vitor e solo de flauta da Mônica Avila, que também toca sax alto em outras canções. 'Tony relax' trás a participação de Tony Allen, vocais em francês de Thiago Queiroz e solo de trompete de Leandro Joaquim.

'Vou pra onde vou' transparece a pegada musical do produtor, até porque conta com os vocais de Jorge Dupeixe e a bateria do próprio Pupillo. Encerrando com mais uma crônica de Fabio Lima, 'Peleja' – onde ele enaltece o sentimento de sermos todos irmãos pertencentes a mesma raça de seres humanos – com novo solo de trompete de Leandro Joaquim.

O novo álbum da 'Abayomy' é mais potente e pegajoso que o anterior e denota certa evolução dessa galera do bem. Parabéns a todos vocês que formam essa maravilhóptima “Orquestra de Afrobeat do Encontro Feliz”! Vocês são phodas!!!

2016 Abra Sua Cabeça

1. Abra sua cabeça
2. Mundo sem memória
3. Omolu
4. Oya! Oya!
5. Com quem
6. Sensitiva
7. Tony relax
8. Vou pra onde vou
9. Peleja

sábado, 30 de janeiro de 2016

NU UNIVERSO NU UNIVERSO NU UNIVERSO NU UNIVERSO NU

Projeto 'NU' reúne Ligiana Costa e Edson Secco apresentando um eletrônico barroco com influências diversas.



Oi Ligiana, (Oi Edson...)
Ouvi o disco todo e achei um climão soturno pesadão – não sei se foi os vocais sobrepostos ou a base eletrônica.... bem diferente do usual e tradicional – Amei as referências das influencias que vão desde os “standarts” clássicos e ao som industrial.

'Kanazawa é épica' – Ô coisa marlinda! 'Rooftop' tem ecos de Bjork.... 'Bergére' também... Governador Valadares' é puro videogame.... 'Lilith' cria quase um mantra espacial.... 'Laniakea' tem um climão poderoso de ficção científica....

Me pareceu que o som nasceu como se brotasse de algum lugar....

Ligiana: Sua impressão foi certeira! As coisas nasceram juntas mesmo, muitas vezes inclusive a composição acontecia no próprio estúdio, gravando, compondo, arranjando... Tudo bem misturado e sem um método a seguir. Em outros casos como 'Lilith' ou a 'Toxic' a música já existia e daí começávamos já pelo arranjo. Mas confesso que a cara do 'NU' é criar tudo junto, flui muito bem!

Edson: Foi assim mesmo! A gente se encontrava frequentemente no estúdio e desde o primeiro encontro coisas iam surgindo. Foi um processo bem orgânico. As vezes trabalhávamos a partir de uma base, uma melodia, um estimulo visual, e as musicas aconteciam. Num primeiro encontro a 'Rooftop' surgiu praticamente inteira, depois iamos lapidando. O timbre e a textura das musicas era muito importante, então trabalhávamos bastante nisso até encontrar o caminho de cada uma. Foi um processo em que produção, arranjo, mixagem iam acontecendo juntos pra dar a cara de cada uma já desde o inicio.

Existe um fio condutor do álbum?

L: “O que está em cima é como o que está embaixo”... Falamos das galáxias, de observar o desconhecido, de imaginar nosso lugar na vastidão do todo, mas também falamos de política, das lutas sociais, das injustiças. Eu vejo o 'NU' meio como um “zoom out” para voltar para dentro com mais força questionadora. Do ponto de vista poético e estético acho que é isso.

E: A vastidão do Universo! :) Um olhar de fora pra dentro pra se perceber nesse espaço-oceano-tempo. Contemplar o céu, as galáxias de fora e de dentro.

Como são as apresentações ao vivo? 

L: A gente tem feito muitas já, na verdade começamos a fazer shows antes de terminar o disco. Temos feito de tudo, palcos enormes e palcos minimais... Em breve teremos uma surpresa visual que acho que vai dar ao nosso show ainda mais este caráter cinemático. Alguns trechos de shows podem ser vistos no nosso canal de youtube!

E: Temos feito shows já há algum tempo, antes mesmo do disco ficar pronto, e temos encontrado o tom desse ao vivo cada vez mais cênico. Estamos agora trabalhando pesado na criação visual, que vai ficar incrível. Surpresa pra muito breve!

Pode enumerar algumas influências menos óbvias?

L: As menos óbvias talvez sejam os mundos sonoros frequentados por mim e por Edson... Eu, particularmente, me dediquei e me dedico também à música antiga, em especial do século XVII – atualmente sou pós doutoranda na USP neste assunto. Então ouço, faço e viajo em ondas muito amplas, de Machaut a Arrigo Barnabé, de Monteverdi a Moacir Santos. Acho que de algum modo essa abertura se reflete no que fazemos, por exemplo: em vários momentos nos inspiramos em toques do candomblé para pensar em nossos beats. De forma bem literal essa ligação com outros tempos acontece na 'Bergére', que é uma “air de cour” do século XVII relida pelo 'NU'.

E: Pois é! As influências são muitas mesmo, numa paleta que vai de Stockhausen a 'Nine Inch Nails', passando por 'Sigur Rós' e pelos toques do candomblé, além de uma pitada cinemática.

A ideia era que o disco fosse tão industrial?

E: Não pensamos muito na estética final do disco. Ele foi acontecendo no processo e as descobertas sonoras encaminharam a gente pra esse resultado. Acho interessante que vc perceba ele industrial. Eu acho que ele tem “ecos” industriais em alguns momentos, assim como ecoam outras sonoridades também. Vejo cada música como uma história sonora-imagética que passa por diferentes paisagens, mundos e sensações.

L: A ideia não “era”, no sentido que não é um trabalho concebido pensando em seu fim. Eu gosto desta palavra “industrial”, não sei muito se nosso trabalho é “industrial”, mas acho interessante que te soe assim! A gente tem se auto nomeado “eletrônico barroco”, pela variedade de afetos, pelo desejo sonoro de introspecção e expansão.

2015 NU

1. Quem
2. Kanazawa
3. Praia Hotel
4. Governador Valadares
5. Laniakea
6. Toxic
7. Bergere
8. Rooftop
9. Lilith
10. MúsicaBomba

domingo, 24 de janeiro de 2016

PELA LUZ DE TODAS LARISSAS DO MUNDO

Larissa Luz lança obra ímpar que apresenta diversas homenagens a personalidades femininas negras que despontaram com sucesso em cenários discriminatórios.



O som de Larissa Luz reflete o sinal dos novos tempos, onde a cultura negra é reverenciada e evocada como nova tendência – no chamado movimento afrofuturismo, afropunk etc.

Numa mistura de rep, roquenrou, trap e dubstep a cantora aborda a música baiana e mostra definitivamente que os soteropolitanos não assumem o axé apenas como ritmo, mas também como saudação religiosa.

O novo álbum da cantora Larissa Luz apresenta a visão feminista em um disco grande e maravilhoso. Apesar de ser filha de Oyá, Larissa assume exu para entregar uma mensagem necessária que inicia o empodeiramento de toda mulher – e principalmente a mulher negra.

O álbum 'Território Conquistado' levou em consideração a imagem de mulheres negras influentes como a cantora Nina Simone, a poetiza Victória Santa Cruz e a escritora Bell Hooks, além da colaboração conceitual da antropóloga Goli Guerreiro.

São dez canções poderosas que refletem a busca de Larissa por influências que lhe são semelhantes – com as quais ela possa se identificar. Trate o álbum como uma tese acadêmica. A faixa de abertura 'Descolonizada', atua como uma introdução do tema e mostrando a que veio.

'Banho de mar' pede licença ao orixá e segue trazendo a receita contra o mau-olhado “arruda na orelha e banho mar”. Em 'Transe', a cantora usa trechos do poema 'Abebé omin' de Lívia Natália, para falar de espiritualidade – dedicada a Makota Valdina.

Em 'Meu sexo', Larissa assume o microfone e fala sobre um assunto tabu e polêmico na “boca machista da mídia branca e careca”, mas que encontra profunda delicadeza e naturalidade na voz da cantora. 'Bonecas pretas' fala da necessidade das meninas negras de terem representação de sua identidade no mercado de consumo.

'Mama chama' tem participação de Thalma de Freitas, composta em parceria com a também cantora Manuela Rodrigues – canção dedicada a Regina Luz, conhecida educadora e mãe da cantora – onde Thalma recita outro poema da baiana Lívia Natália. 'Letras negras' foi inspirada pela escritora Carolina de Jesus, enquanto 'Nollywood' remete à autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, juntamente com o cinema africano.

Para a cantora, a canção título 'Território conquistado' é o ponto alto do álbum. Um canção dedicada e com participação especial da cantora Elza Soares. “Intensidade transbordando e inundando o mundo com poder feminino, força negra e muita verdade”, afirma Larissa.

Encerrando o álbum de forma contundente, com a canção 'Violenta', que dá uma visão curadora e renovadora a toda a mulher negra que já sofreu violência. Esse disco é uma obra transformadora!

2016 Território Conquistado

1. Descolorizada
2. Banho de mar
3. Em transe
4. Meu sexo
5. Bonecas pretas
6. Mama chama
7. Letras negras
8. Nollywood
9. Território conquistado
10. Violenta

domingo, 17 de janeiro de 2016

COTIDIANO REVISTO PELA EXPERIMENTAÇÃO SONORA DE CÁSSIO FIGUEIRADO

Instrumentista apresenta retalhos musicais que extrapolam as experiências sonoras do cotidiano pessoal e coletivo.

Cassio Figueiredo apresenta um apanhado de canções diferentes que funcionam como experiências sonoras inusitadas.

O disco 'Presença' mostra arranjos e ambientações esquisitas e experimentais. Com produção de Cassio Figueiredo e Cadu Tenório, o disco trás gravações de campo, violão, violino e loops de fita de Figueiredo e sintetizadores, loops em cassete, objetos amplificados e microfonias por Tenório.

2016 Presença

1. A forma do dia
2. Retorno
3. Rua
4. Laura
5. Trajeto
6. Coisa
7. Entre coisas
8. Sarnambi
9. Dois
10. Caminhão de lixo
11. Condução