domingo, 29 de dezembro de 2013

FRANÇA, MALAGUETA, PERUS E BACANAÇO

Inspirado no universo notívago dos bares paulistanos, o saxofonista Thiago França apresenta uma obra cheia de suíngue e balanço.


Thiago França é onipresente na nova safra da música brasileira. O saxofonista é co-fundador da banda 'Metá Metá', junto com Kiko Dinucci e Juçara Marçal, toca na banda do Criolo, também tem projetos como a banda 'MarginalS', 'A Espetacular Charanga do França' e o 'Sambanzo'.

Neste álbum, ele apresenta o universo da noite paulistana na visão do escritor João Antonio. O disco, 'Malagueta, Perus e Bacanaço' é livremente inspirado na obra literária de mesmo nome, escrita por Antonio. Na obra, Malagueta e Bacanaço são malandros que vivem de pequenos golpes nos bares da capital, enquanto Perus é o pivete que se vê no meio dos dois vagabundos.

Da mesma forma que João Antonio apresenta uma literatura rimada e ritmada, como fosse uma longa e extensa canção em homenagem ao trio de golpistas nas mesas de sinuca da Boca do Lixo em São Paulo, as canções do álbum contam uma história através dos bailes noturno de gafieira, samba e bolero.

O álbum 'Malagueta, Perus e Bacanaço' funciona como uma ópera paulistana, e a canção título abre a obra como uma Overture, Num samba jazz com um pé na gafieira. As canções 'Fome (Malagueta)', 'Nostalgia (Perus)' e 'Picardia (Bacanaço)' apresentam os personagens desta ópera da Boca do Lixo, mas também os definem, respectivamente. Daniel Ganjaman toca hammond nas duas últimas.

O rapper paulistano Ogi canta em 'Caso do Bacalao', composta em parceria com Kiko Dinucci, que ainda toca guitarra e percussão em 'Vila Alpina', que é cantada e composta por Rodrigo Campos, que ainda toca cavaquinho, guitarra e violão em outras faixas. A cantora Juçara Marçal canta em 'Na multidão', um samba moderno composto por Dinucci e Rômulo Fróes.

Compondo sobre temas da noite paulistana, França consegue te transportar pelo ambiente através dos movimentos 'São Paulo de noite' e 'Bolero de Marly', que representam uma jornada madrugada adentro, enquanto o 'Tema do Carne Frita' apresenta a figura do lendário jogador de sinuca paulistano.

'De volta à Lapa' encerra a tour pela noite da capital paulista com direito a visita na padaria da esquina, pela locução especial de Maurício Pereira. Além das participações já mencionadas, e de Thiago França nos saxs (alto, tenor e soprano), flauta e pocket piano, o disco também foi gravado por Anderson Quevedo no sax barítono, Amilcar Rodrigues no trompete e flughel, Didi Machado no trombone, Pimpa na bateria e percussão e Marcelo Cabral no baixo.

Um álbum feito como uma adaptação sonora da obra de João Antonio, 'Malagueta, Perus e Bacanaço'. Agora é só esperar o próximo script com a logomarca 'França S.A.'.

2013 Malagueta, Perus e Bacanaço

1. Malagueta, Perus e Bacanaço
2. Picardia (Bacanaço)
3. Caso do Bacalao
4. São Paulo de noite
5. Tema do Carne Frita
6. Nostalgia (Perus)
7. Na multidão
8. Bolero de Marly
9. Fome (Malagueta)
10. Vila Alpina
11. De volta à Lapa

domingo, 22 de dezembro de 2013

DE AMORES SONOROS E CASTELLO BRANCO

Cantor carioca estréia com álbum repleto de delicadeza com canções suaves de melodias singelas e belas. 



Castello Branco fazia parte da banda R.Sigma, mas com o encerramento do ciclo, lançou-se em processo de redescobrimento até criar o projeto solo que culminou neste disco, 'Serviço'.

Logo na abertura, Castello Branco versa sobre o crescimento em 'Cres-Sendo'. “Não há porque viver, senão pra crer e ser crescendo sendo. Não há porque amar, senão pra semear conhecimento", canta.

A partir de então o ouvinte está fisgado pela levada etérea e poesia passional. 'Necessidade' apresenta uma continuação no andamento, que encerra apenas em 'Tem mais que eu', como se formassem uma suíte de três movimentos. “Que se fosse assim, amor daria em pé de árvore”, encerra ele.

'Kdq' brinca com a língua portuquesa e o sotaque característico de outrora e agora muito utilizado como abreviações etc. Com participação de Gabriel Ventura na guitarra.

Participação especial da bela voz de Alice Caymmi em 'Palavra divina; Quietude extraordinária' e na linda canção 'As minhas mães'. 'Céu da boca' e 'Acautelar' formam uma suite de samba, com versões modernas de bossa nova e do samba-canção, respectivamente.

'Guerreiros' usa o 'Guarani', de Carlos Gomes, como música incidental, mas apresenta uma versão coral religioso versus indie-rock de lotar estádios inteiros.

O álbum foi produzido pelo próprio Castello Branco, acompanhado por Strausz, Tô e Lôu Caldeira. Com Tô e Castello Branco nos violões, Patrick Laplan no baixo e bateria, Tô e Strausz nas guitarras e Tadeu Campany na percussão.

Uma surpresa sensacional com canções recheadas de um verdadeiro sentimento de amor e compaixão, com uma áurea que transpõe a barreira sonora e invade o ambiente por inteiro.

2013 Serviço

1. Intro ave
2. Cres-Sendo
3. Necessidade
4. Tem mais que eu
5. Entreaberta
6. Kdq
7. Palavra divina; Quietude extraordinária
8. As minhas mães
9. Céu da boca
10. Acautelar
11. Guerreiros
12. Anu

domingo, 15 de dezembro de 2013

O PONTO DO TAMBOR E DA VOZ DE ULLY COSTA

Cantora paulista apresenta primeiro trabalho solo, após três álbuns cantando samba-rock com a banda 'Sandália de Prata'.


Ully Costa nasceu cantando. Desde pequena tem forte aptidão para música e demonstra esse talento em cada nota do álbum 'Quem sou Eu'.

A cantora já lançou três álbuns com a banda 'Sandália de Prata', mas é na estréia em carreira solo que ela se destaca. O novo álbum nasceu da vontade de regravar 'Quem sou eu' de Pedro 'Sorongo' Santos – do disco clássico 'Krishnanda' – e além de ter sido a primeira faixa a ser gravada, foi o nome do álbum da cantora.

Outras regravações permeiam o álbum, como o samba-jazz 'Capoeira de Oxalá', o jazz-indígena 'A querer', a balada soul 'Olhos dágua' e o samba 'Veja o meu lado'. Destaque para 'Festa do Rei Nagô' e 'O ponto' do compositor Jairo Cechin. 'Matrinheiro/ Iorá Édun' e 'Pindorama' encerram o repertório do disco.

Participações especiais de gente como o DJ KL Jay dos 'Racionais', Bruno Marques e Curumin nas baquetas, Pepe Cisneros, Marcelo Pretto e Leonardo Mendes, que foi produtor do álbum. 

Apesar de não ser estreante em gravações e espetáculos, Ully Costa pode ser considerada uma grata surpresa nas estréias do ano. Com voz e estilo único, ela entrega um trabalho maduro e sintonizado com o cenário atual. Com a palavra, a própria cantora...

Como foi que vc começou na música? De onde veio a faísca que te levou à musica?
Quando criança eu morava num pequeno sítio no Capão Redondo. Naquela época o bairro ainda era muito parecido com o interior de São Paulo. Havia no meu quintal um pé de abacate com um balanço onde eu passava muito tempo cantando o mais alto que podia. Na segunda série do primeiro grau tive uma professora chamada dona Vilma, em suas aulas tínhamos muito contato com boa música e ela sugeriu a minha mãe que eu deveria estudar algum instrumento e assim tudo começou...

Como fica o trabalho com a 'Sandália de Prata'?
Com o 'Sandália' vivi e vivo momentos inesquecíveis e aprendo muito com esse trabalho, sempre! Sinto que é possível continuar produzindo no 'Sandália' paralelamente à este novo trabalho.

Existe algum fio condutor no disco 'Quem sou Eu'?
Sou filha de sertanejo e fui criada com nordestinos, parte da minha adolescência estive muito envolvida com o samba e com o rock. Sou muito curiosa e da maneira como fui criada seria impossível ter pré-conceito sobre qualquer coisa. Eu não estou afirmando nada com esse disco e sim buscando. Pintei meu rosto e meu corpo na arte gráfica junto com a Prila Paiva (artista plástica) numa busca contemporânea dessa nossa ancestralidade, de quem se pinta para um ritual. A música pra mim é um ritual.

Como você vê a questão dos free-downloads?
Fundamental, mas prefiro ter o controle de como essa música vai ser baixada. Pelo menos estabelecer algum tipo de troca, onde se possa, por exemplo, saber o nome e o email de quem está baixando a minha música. Nem sempre é possível, mas me parece o certo. Quando vamos pra um estúdio gravar, buscamos fazer tudo com o melhor. Pra captar os tambores e manter a melhor sonoridade usamos os melhores microfones. Os melhores instrumentos,os músicos vem com o seu melhor. O trabalho tem uma arte toda pensada. Então, se for pra baixar, que seja com dignidade, rsrsrs...

2013 Quem sou Eu

1. A querer
2. Festa do Rei Nagô
3. Capoeira de Oxalá
4. O ponto
5. Olhos dágua
6. Veja meu lado
7. Marinheiro/ Iorá Édun
8. Pindorama
9. Quem sou eu

domingo, 8 de dezembro de 2013

OS METÁ MULHERES METÁ NEGRAS COM SABOR GUEMBÔ

'Os Mulheres Negras' se juntam ao 'Metá Metá' para apresentarem espetáculo antológico, magistral e intimista.
São Paulo, 18 de agosto do ano de 2013, no Casa de Francisca, dois gigantes se colidiram num espetáculo colossal.

São Paulo, 1988, os jovens paulistanos André Abujanra e Maurício Pereira, lançavam o primeiro álbum sob o nome 'Os Mulheres Negras' – 'Música e Ciência' – onde experimentavam samplers eletrônicos misturados às guitarras e saxofones da dupla, que ficou conhecida como “a terceira menor big-band da história”.

Depois de um segundo disco – 'Música Serve pra Isso' – a dupla 'Os Mulheres Negras' se separou com cada qual seguindo a própria carreira. Maurício gravou um disco solo – 'Na Tradição' – enquanto Abujanra formou o 'Karnak', com quem também gravou álbum. Ambos seguiram as carreiras sempre participando dos álbuns dos antigos parceiros e vez ou outra retomando a parceria em shows especiais da dupla.

São Paulo, 2011, o compositor e violonista, Kiko Dinucci, a cantora Juçara Marçal e o saxofonista e flautista Thiago França lançaram o resultado fonográfico da parceria entre eles, o trio 'Metá Metá'. O álbum foi um sucesso e abriu caminho para o segundo petardo – 'MetaL MetaL', que hoje incorporou novos integrantes – mas neste espetáculo aparece apenas como trio.

São Paulo, 2013, na Casa de Francisca, as duas bandas se uniram e realizaram um espetáculo, que poucos puderam prestigiar. Já há algum tempo que a dupla Abujanra e Pereira se apresentam numa espécie de revival d'Os Mulheres Negras' e como poderíamos esperar, duas bandas das mais legais e importantes de suas respectivas décadas se unificaram num duplo-trio-de-cinco, com a adesão dos integrantes do 'Metá Metá.

Considerando que os anos 80 foram cheios de inúmeras bandas legais, mas dentre todas elas a que continua atual e relevante nos dias de hoje é sem dúvida nenhuma 'Os Mulheres Negras', enquanto as outras se tornaram meros representantes do saudosismo à época. O 'Metá Metá' já é essa unanimidade por onde passa, mas apresenta fortes influências de Pereira e Abujanra. Nesse dia apresentaram um espetáculo com repertório mesclado de canções das duas bandas e dos quatro álbuns que lançaram.

Das canções d'Os Mulheres Negras', eles tocaram 'Só tetele', 'Orelhão', 'Purquá mecê?', 'Milho', 'Mãos coloridas' e 'Métodos Os Mulheres Negras para o ensino do skate na escola pública do terceiro mundo'. André Abujanra relembra a história de 'Guembô' e sugere que a junção das duas bandas deveria usar esse mesmo nome.

'Imbarueri' também era do repertório da dupla, mas foi gravada posteriormente por Maurício Pereira no disco solo 'Mergulhar na Surpresa'. 'Trovoa' também havia sido gravada por Pereira – no álbum 'Pra Marte' –, mas ficou mais conhecida na voz de Juçara Marçal, no primeiro disco 'Metá Metá'.

Também do 'Metá Metá', foram apresentadas as canções 'Cobra rasteira', 'Obá Iná', 'Obatalá', 'Oyá' e 'Ossanin'. 'Depressão periférica' também foi incluída no repertório, por se tratar de uma parceria entre Kiko Dinucci e Maurício Pereira, gravada no disco solo de Dinucci com vários cantores e parceiros – 'Na Boca dos Outros'.

A santa missa do velho modelo “faça-vocë-mesmo” tem neste registro, seu mais precioso cântico espiritual, com a soma das duas bandas mais atuantes nesse sentido. 'Os Metá Mulheres, Metá Negras' (apenas 'Guembô' – como prefere Abujanra) apresentam objetivos idênticos, mas separados por uma década de existência.

Com esse registro ao vivo, com qualidade da mesa de som, sem mixagem, sem cortes etc e tal, 'Os Mulheres Negras' se atualizam ao compartilharem as experiências com o 'Metá Metá' e compartilharem com todos ouvintes.

2013 Os Metá Negras Ao Vivo na Casa de Francisca

1. Mãos coloridas - Ossanin
2. Métodos Os Mulheres Negras para o ensino do skate na escola pública do terceiro mundo
3. Imbarueri
4. Depressão periférica
5. Cobra rasteira
6. Trovoa
7. Milho
8. Oyá
9. Só tetele
10. Guembô
11. Obatalá
12. Obá Iná
13. Orelhão
14. Purquá mecê?

domingo, 1 de dezembro de 2013

O GRANDE BARCO É DO TAMANHO DO MUNDO

Sids Oliveira ressurge com 'O Grande Barco' em álbum de poemúsica, onde ele apresenta influências de Walt Whitman, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, entre outros.  


Para falar d'O Grande Barco' é preciso antes estabelecer as motivações do personagem principal do projeto – o poeta Sids Oliveira.

A primeira incursão de Sids na área musical foi com a banda de punk-rock 'Pastel e Caldo de Cana', que manteve ao lado do colega Luiz Alfredo, hoje conhecido como Alfredo Bello, ou DJ Tudo. Depois cantou com a banda 'Maya Desnuda', que também tinha gente como Sergio Cepa, George Lacerda, Janaina Sabino, entre muitos outros. Quando a banda se separou, Sids continuou como duo junto com Cepa, apenas guitarra e voz, no que ficou conhecido como 'Poesia Oblíqua'.

Foi esse projeto que determinou o surgimento d'O Grande Barco', com bases eletrônicas e guitarra e voz. O lançamento do primeiro álbum aconteceu através de um livro de poesia musicada, ou como o próprio Sids prefere nomear de “Poemúsica” - 'Um Dedo de Prosa, Uma Mão de Poesia'. O disco, lançado em 2005, vinha encartado no livro e tinha diversas participações especiais, dentre elas a do guitarrista Sergio Cepa e do baixista e produtor musical Alfredo Bello, no que foi uma de suas primeiras incursões na área de produção.

Hoje, 'O Grande Barco' renasce na forma de álbum virtual, mas com a essência intacta de poesia musicada, ou como prefere Sids, “poemúsica”. Atualmente a banda conta com Davi Abreu nas programações e flauta, Leandro Morais nas guitarras e do próprio Sids Oliveira na voz e programações.

Neste novo álbum, Sids aprimora a sua fórmula de composição, criando uma poesia cada vez mais musicalizável. Com isso quero dizer que os poemas de Sids sempre foram muito musicais, desde a época da 'Maya Desnuda', mas atualmente nota-se a evolução da mensagem desse personagem.

'O Grande Barco' lançou, não apenas um disco de “poemúsica”, mas um álbum repleto de boas canções. Sids apresenta uma mistura homogênea de repente, xote, reggae, ciranda e diversos ritmos brasileiros com batidas eletrônicas e guitarra, flauta e voz.

Com isso, deixo a palavra com o próprio personagem desta história, o próprio Sids.

Houve um longo hiato entre o primeiro álbum e este segundo... O que você andou fazendo nesse tempo?
Fiz um segundo livro de poesia, 'VOOS' (a ser lançado) e um livro infantil 'Lili e o Dragão' (também a ser lançado). Participei do livro-coletânea 'Fincapé' (2011) do 'Coletivo de Poetas' daqui de Brasília e do DVD/CD do 'DJ Tudo e sua Gente de Todo Lugar' ao vivo no auditório do Ibirapuera, São Paulo (2011) do amigo e parceiro Alfredo Bello em sampa. A música 'Verdelinho' (do primeiro disco) foi remixada pelo DJ Tudo e lançada no CD 'Garrafada' (2008). Tem uma poesia de minha autoria no CD 'Sim One Sou' (2011), de Simone Sou, em russo e português. Também participei com voz e poesia, em duas faixas, no cd 'Projeto Cru' com Simone Sou, Alfredo Bello e Marcelo Monteiro em 2006 em São Paulo. Agora em 2013 minha poesia 'Tango 78', da época do 'Maya Desnuda', e que está no primeiro livro, fez parte da dramaturgia do espetáculo 'Infinito Vazio', da premiada 'Semente Cia de Teatro', do Gama. Fiz também um Laboratório de Poéticas no Espaço 'Semente'...

Qual é o ponto de partida de suas poesias?
Como podes conferir os temas são variados, assim como as linguagens... Em alguns casos fico intrigado com um verso, uma imagem, um acontecimento... em 'Tantinho do mundo', por exemplo, o verso "o sertão é do tamanho do mundo", de João Guimarães Rosa (martelou, no bom sentido, por meses em minha cabeça e ser), e daí saiu que "o Gama é um tantinho do mundo/ um risinho do fundo/ um chorinho profundo"... "é o que me leva e trás a você"... "quem Gama mora no Ama" (parafrase da famosa anônima "quem ama mora no Gama)...
Em outros casos eu brinco, como em 'Eu rio' que veio de uma poesia visual onde formo um rio com os dois versos que se seguem) "eu rio para a existência/ eu rio para a experiência".... daí fui brincando, rindo, seguindo... Já em 'Toque' entra, também, a sonoridade das palavras, o sutil, o singelo com brincadeira também...
'Célula' veio das pesquisas sobre célula tronco, sobre a possibilidade de seres humanos serem criados em "máquinas"...
'Elas na feira' nasceu da emoção transmitida pelas ceguinhas Maroca, Poroca e Indaiá... Elas, as ceguinhas, são maravilhosas como as milhares de mulheres de nosso Brasil (sugiro imagens de mulheres guerreiras na letra), como a minha mãe (agradecido mãezinha!!!).
Os processos são múltiplos.

Como foi o processo de gravação deste álbum?
Foi simples. Optamos por manter as bases/composições criadas a partir do Reason (programa eletrônico de edição de áudio), daí foram aplicados plugins e ajustes de timbres pelo Luiz Oliviéri, nosso produtor, e as músicas foram crescendo, singelamente, encorpando. As gravações foram feitas com poucos takes, praticamente diretas, e algumas sugestões foram aplicadas durante o processo, como em 'Toque, onde eu queria, sentia a necessidade, de que a música ficasse maior e ficou. As participações especiais foram pontuais com os meus amigos-irmãos Alfredo Bello e Marta Carvalho, em 'Elas na feira', e do Luiz Oliviéri, em 'Descalço'.

O primeiro disco foi feito como obra suplementar ao livro de poesias... Nesse segundo trabalho, você acredita que a situação se inverteu? ...que hoje as letras vêm em função da música...
Não. A diferença que vejo deste segundo álbum para o primeiro é que participo mais diretamente do processo musical, graças ao Reason.
No primeiro disco eu encaixava mais as letras nas músicas ou falava para os músicos a minha idéia musical que vinha a partir da letra, do seu ritmo, das suas cores... em alguns casos a idéia era só de vozes.
Bom, o processo criativo em si é bem parecido entre os dois discos, ou seja, não existe um caminho definido. Por exemplo em 'Descalço' eu já tinha as duas letras (e a idéia da "levada" delas), daí comecei a brincar com o Reason e encaixei as letras e melodia na base/composição, daí o Davi também brincou com o Reason e criou a melodia da flauta, um synth e o baixo da parte do "paranoá". Em 'Célula' o Davi chegou com a música pronta e eu fui brincando com a letra, juntei duas idéias que estavam esperando a música. Já em 'O capoeira' o Davi trouxe a primeira parte da música, com influencia da música eletroacústica, e encaixei a letra com o jogo de capoeira, mas, intrigado, achando que podia mais, eu acrescentei bateria, percussão e outros elementos eletrônicos como guitarra... Daí fui brincando com a letra e chamei o Chico Science e o João Cabral de Melo Neto, em memória... Se reparares nela, na composição, verás que damos um rolê por Recife e Olinda, em companhia mais que poética, com o Chico e o João Cabral.
A música por vezes chama a letra, mas a letra também chama música. Gosto disso.

Qual é sua posição sobre esse assunto de livre compartilhamento? Acessibilidade ou pirataria?
Disponibilizamos este segundo álbum como o primeiro também... Acessibilidade!!!
Mas respeito os artistas que querem ganhar o seu por meio do seu trabalho, o lance é que esse processo da disponibilidade de bens é um caminho sem volta, creio. Assim seja!
Pra completar, na segunda metade dos anos oitenta vivenciei o "faça você mesmo" e vejo essa disponibilidade toda como uma consequência disso, ou seja, faça e deixe fazer, compartilhe, compartilhe-se. Eu Ovo!!!

2013 O Grande Barco

1. Toque
2. Eu rio
3. Descalço
4. Tantinho do mundo
5. Fênix
6. Célula
7. Elas na feira
8. O capoeira
9. Ciranda de ciranda